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  • Caroline Leonel dos Santos

Luto na pandemia

Atualizado: 10 de abr.





Passamos por um momento de muitas perdas. Se você não perdeu alguém querido, provavelmente conhece alguém que perdeu; se seu trabalho não foi afetado com a pandemia, provavelmente você conhece alguém que passou por isso; se sua ansiedade não começou a atrapalhar a sua vida cotidiana nesse período, provavelmente conhece alguém que não está bem. E é por isso que falar sobre luto agora é tão importante. Para que possamos cuidar da nossa saúde mental e oferecer cuidado a quem precisa. E, acredite, tem muita gente precisando.


O luto é o conjunto de reações diante de uma perda significativa. É o processo de reorganização da vida diante do rompimento de relações em que havia investimento de afeto. É comum relacionarmos o luto à morte de pessoas próximas, mas ele também acontece em outros contextos, e a pandemia nos deixou diante de muitos deles. Podemos pensar, por exemplo, na perda do trabalho, dos meios de sustento, da saúde, de bens materiais, da vida como a gente conhecia, da segurança ao sair de casa e encontrar pessoas, de relacionamentos amorosos, do adiamento de planos e por aí vai.


O luto não é uma doença, é um processo natural da vida, que, apesar de doloroso, quando vivenciado sem bloqueios pode trazer crescimento e amadurecimento emocional. No entanto, alguns fatores podem torná-lo complicado. Além de aspectos mais gerais, como as características pessoais da pessoa enlutada e o contexto da perda, as medidas preventivas, tão importantes nesse momento, também limitam as práticas de despedida, como a presença de familiares no período de internação e o velório, que são muito importantes para a melhor elaboração do processo.


Além disso, a postura de alguns dos nossos governantes, que agem por interesses próprios e literalmente fazem piada da situação, invalidam a gravidade do momento e alimentam posturas resistentes e despreocupadas. O resultado é um clima de normalidade distópica e cruel, que invalida a dor de quem perdeu alguém ou algo muito importante e empurra os mais vulneráveis para o olho do furacão. Chegamos a um ponto em que é preciso lembrar que não estamos falando de números, e sim de vidas perdidas, de pessoas com uma história. Hoje sabemos que um óbito pode afetar até 10 pessoas próximas.


Algumas reações são esperadas, como, por exemplo, solidão, tristeza, medo, culpa, isolamento e descrença, entre outras. Mas elas não são regras, portanto cada pessoa lida com o luto da sua forma. Não existe um jeito certo de enfrentar uma perda importante, não existe um remédio que alivie a dor do rompimento, não é possível definir um tempo exato de duração do processo. O que nós podemos oferecer é a nossa presença e a nossa disponibilidade e, para isso, talvez seja necessário descontruir tabus e estigmas sociais, que contribuem para que a pessoa enlutada se comporte como a sociedade espera, o que pode ser diferente das suas necessidades emocionais.


É por estamos atualmente diante de tantos complicadores, que a criação de espaços seguros de acolhimento é tão importante. Quando o ambiente e as pessoas próximas são acolhedores e possibilitam que a pessoa enlutada expresse o que está sentindo, existem mais chances de que ela encontre em si os comportamentos e respostas que a ajudarão no enfrentamento da perda. Então, ela continuará a viver e se desenvolver naturalmente. O desafio atual é oferecer presença e cuidado sem oferecer riscos. Nesse sentido, a internet tem sido uma grande aliada, pois ela possibilita que estejamos próximos afetivamente sem estarmos perto fisicamente.


Os fatores de proteção diante do luto, entre outras coisas, estão ligados ao acolhimento da família e dos amigos próximos, é o que chamamos de rede de apoio. Ou seja, todos podem ajudar uma pessoa enlutada ouvindo e acolhendo. Contudo, é importante ressaltar que a ajuda profissional se faz necessária nos casos em que a reorganização da vida se torna complicada. No entanto, não é necessário chegarmos ao limite para cuidarmos de nossa saúde mental, já que todos podem se beneficiar do cuidado profissional nesse momento que estamos vivendo, tanto quem cuida quanto quem precisa de cuidado. Busque ajuda se sentir que é necessário.


“Acabei por me convencer de que quanto mais um indivíduo é compreendido e aceito, maior tendência tem para abandonar as falsas defesas que empregou para enfrentar a vida e para progredir num caminho construtivo”. Carl Rogers


Psicóloga Caroline Leonel - CRP 06/139876





* Fontes pesquisadas:


E os que ficam? - Cartilha de orientações sobre o luto decorrente da morte de um ente querido no contexto da covid-19 /Bruna Bortolozzi Maia, Bruna Rafaele Rodrigues Campos, Flávia Neves Ferreira, et al /2021


Luto na Pandemia - Video do Youtube/ Palestrante: Maria Júlia Kóvacs, professora sênior do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo/ 2021.


Vivência de luto em adultos que perderam a mãe na infância/ Ana Paula Fujizaka/ Dissertação de mestrado apresentada ao Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo/ 2009.





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